| 3ero.
Diálogos Feministas |
Nairobi
2007 |
O
desafio de transformar o mundo enquanto nos transformamos
Guacira
César de Oliveira
Socióloga, coordenadora colegiada do Cfemea,
da Coordenação Nacional da AMB
e da Articulación Feminista Marcosur
Para fazermos um debate político sobre a democracia, temos
que partir de realidades concretas e não de puras abstrações.
A realidade concreta de onde parto é a da América
Latina e, mais especificamente, da do meu pais, o Brasil. Estamos,
portanto, falando da região que amarga os mais altos índices
de desigualdade do planeta. A concentração da renda
e do poder em nosso país é enorme.
Falamos a partir de uma região com um passado colonial
e escravagista, onde as relações patriarcais, racistas
e etnocêntricas sempre estruturaram o poder político.
Onde a supremacia dos homens brancos se construiu com a forca
dos impérios europeus e com a evangelização
da igreja católica para dominar os povos indígenas
originários e escravizar as populações africanas
traficadas. Onde o fenômeno da miscigenação
se concretizou violentamente, a partir do estupro colonial, cometido
pelos homens brancos contra as mulheres negras e indígenas.
Falamos de um lugar com um passado muito recente de ditaduras
militares sangrentas, e de democracias muito jovens, com cerca
de duas décadas.
Na nossa modernidade latino-americana, tão desiludida,
a democracia continua sendo o reino dos senhores brancos. Mesmo
reconhecendo o tamanho das barreiras, as feministas decidiram,
faz tempo, ocupar o espaço da democracia, reconfigurá-lo,
redefini-lo: democracia em casa e no mundo! Democracia na vida
cotidiana e no sistema político. É contraditório?
Sim, mas também é transgressor. Trata-se de desconstruir
a democracia, desnudando todas as suas insuficiências e
denunciando a forma como ela opera para manter e reproduzir a
mesma ordem injusta e autoritária; e, ao mesmo tempo, radicalizar
a democracia para que se possa conduzir o processo de transformação
social.
A estratégia subversiva do feminismo, que tanto se identifica
com a luta pela democracia, quanto continuamente esgarça
seus limites é exatamente o que lhe confere autoridade
política para enfrentar a crise atual da própria
democracia na América Latina. O sistema democrático
está em xeque porque as suas instituições
são incapazes de dar consequência aos valores fundamentais
de liberdade, igualdade, solidariedade. Basta constatar o grau
e concentração de riqueza e poder que se alcançou
durante a vigência dos recentes regimes democráticos
em nossa região.
Antes de mais nada, é preciso considerar a destruição
produzida pelo atual sistema de acumulação em relação
às instituições da democracia representativa,
dado que foi por esta via democrática que realizaram-se
reformas neoliberais profundas no Estado e na economia, razão
do enorme descrédito da classe política e da própria
política na atualidade.
As
privatizações, a flexibilização das
relações trabalhistas, a redução dos
gastos sociais, a redução do papel do Estado na
garantia de direitos, foram medidas levadas a cabo nas duas últimas
décadas, na plena vigência de regimes democráticos.
Para
os cidadãos, de uma maneira geral, isto significou desemprego,
maior desequilíbrio nas relações entre capital
e trabalho, precarização dos serviços públicos,
mas para as mulheres, em particular, estas medidas implicaram
numa transferência da esfera pública para a esfera
doméstica de uma parte importante das responsabilidades
sociais e, acima de tudo, a frustração das expectativas
políticas em termos de bem-estar social, porque de verdade,
nunca houve um Estado de Bem-Estar Social na América Latina.
Foi,
porém, o estabelecimento de um regime democrático,
com todas as suas insuficiências, que nos permitiu como
feministas travar lutas importantes para estabelecer um novo marco
legal de combate à violência doméstica e sexual
contra as mulheres; nos abriu espaços de disputa em torno
dos direitos sexuais e reprodutivos; nos possibilitou afirmar
os direitos das trabalhadoras e buscar medidas de ação
afirmativa no mercado de trabalho e para a participação
política das mulheres.
Foi o estabelecimento desse regime democrático que tornou
possível enfrentar as disputas políticas e conduzir
ao Poder, pelo voto, novos presidentes e uma presidenta, que representam
partidos políticos e coalizões que se construíram
na luta contra as várias formas de opressão e as
ditaduras militares na nossa região. Pela primeira vez,
temos uma mulher à frente da presidência no Chile,
um indígena na Bolívia, um operário no Brasil,
um negro na Venezuela, eleitos ou re-eleitos com mais de 60% dos
votos.
Em
que pese tais mudanças, a presença das mulheres
no Parlamento Brasileiro não ultrapassa 9%, a presença
de afrodescendentes (ainda que não haja dados oficiais)
não chega a marca dos 5%, quando são 43% da população.
E indígenas simplesmente não há. Os segmentos,
historicamente despossuídos de direitos, não estão
nos espaços de decisão.
Não
há dúvida sobre os limites dessas conquistas. A
concentração de poder continua a corresponder à
concentração da riqueza. O Estado tem um compromisso
enorme com o sistema capitalista. Os governos que estão
a sua frente continuam, em termos substantivos, mantendo a ordem
neoliberal.
A
dívida pública, interna e externa, de nossos países
é enorme. A exceção de uns poucos, como é
o caso da Venezuela. A opção por priorizar o ajuste
fiscal, vem reproduzindo a pobreza e as desigualdades sociais,
dado o negligenciamento e subalternização das políticas
públicas orientadas ao pleno exercício dos direitos
humanos, econômicos, sociais, culturais e ambientais da
cidadania. Afinal, as políticas públicas são
vias essenciais de acesso aos direitos, à sobrevivência
das populações pobres, discriminadas e marginalizadas.
No
Uruguai, cerca de 90% do orçamento está comprometido
com a dívida. No Brasil, 60% da receita pública
está comprometida com amortizações e juros
das dívidas públicas interna e externa. Para se
ter uma idéia, os programas de transferência de renda
para as famílias pobres, desenvolvidos pelo Estado, transferem
a este segmento da sociedade apenas 10% do montante de recursos
públicos que repassam aos credores da dívida pública.
O estreitamento da esfera pública, provocado pela usurpação
dos recursos e do poder público, tanto pela corrupção,
pela privatização, quanto pela fraude da representação
política, é elemento que fala alto sobre os limites
estreitos da democracia liberal.
A democracia representativa liberal é superficial e de
baixa intensidade para lidar com os enormes conflitos que a realidade
latino-americana nos coloca. Aos movimentos de mulheres e feminista
não interessa a inclusão nesta mesma ordem. Queremos
mudá-la. É preciso democratizar as instituições
representativas, inclusive e, especialmente, porque este é
o principal espaço de decisão de conflitos sociais,
econômicos e de interesses.
Mas é necessário muito mais que isto para radicalizar
a democracia. O poder da cidadania nunca pode ser inteiramente
delegado, ele cabe à cidadania. Por isso, é preciso
criar e fortalecer os espaços de participação
e controle social sobre o Estado, sobre as políticas e
os recursos públicos. É necessário criar
e fortalecer mecanismos de democracia direta, como plebiscitos,
referendos e consultas populares, que criem condições
para a cidadania se expressar soberanamente.
Porém, a base de tudo isto é uma sociedade democrática.
É preciso democratizar a própria sociedade. Acreditamos
que os movimentos de mulheres, assim como outros movimentos sociais
podem, com autonomia política, vocalizar e processar aquilo
que o sistema representativo já não pode processar.
Entretanto, mesmo estando comprometidos com a afirmação
dos direitos e promoção da igualdade, os movimentos
sociais não estão livres de conflitos e até
antagonismos, de desvios sexistas e racistas, por exemplo. “Consolidar,
nos próprios movimentos sociais espaços que primem
pela eqüidade de gênero e étnico-racial, que
sejam capazes de dialogar, confrontar idéias, projetos,
propostas de alianças, prioridades de luta para superar
as insuficiências teóricas e políticas de
cada um destes sujeitos políticos, ainda é um desafio”
(Betânia Ávila).
Mas, enfim, o diálogo, ainda que inicial, já abriu
algumas trilhas no caminho de afirmação da diversidade,
de reconhecimento das identidades culturais e políticas.
Em
síntese, a luta democrática pela afirmação
de direitos e promoção da igualdade, não
há como se delegar a outros esta tarefa. Tem de ser sujeito
político, ator político, cidadão/cidadã,
numa esfera de equivalência democrática, afastando
o risco de manter e/ou reproduzir desigualdades e privilégios.
Tal concepção tem um potencial crítico relevante,
na medida em que inviabiliza os modelos prontos, construídos
de cima para baixo, e concentra esforços na articulação
do processo político que desencadeia a transformação
social.
A ação política, a partir dos movimentos,
tem o potencial de ampliar o espaço público e de
enfrentar a crescente irrelevância da política dentro
da dinâmica capitalista. Irrelevância que se revela,
como destaca Francisco de Oliveira, no fato de que as grandes
questões e decisões passam por fora do sistema representativo
e não estão ao alcance das instituições
que a democracia liberal criou para veicular esta reivindicação
da parte dos que não têm parte.
A ação política tem o potencial para enfrentar
o problema da redução do poder político ao
poder econômico, fenômeno que, como vimos, reduziu
o poder de mudança do voto. O mercado financeiro, por exemplo,
pode declarar a falência de um país ou, sob a ameaça
de fazê-lo, exigir superávit primário nas
contas fiscais do Estado. E, se a exigência for descumprida,
mobilizar pela divulgação do risco país,
provocando a retaliação imediata do mercado, como
a fuga de capitais ou a redução de investimentos.
O desafio é nos transformarmos como movimento, ao mesmo
tempo em que transformamos o mundo. É muito! Mas parece
que o estrago é de tal dimensão que não dá
para ser menos. Nossa ação na esfera pública
tem de ser capaz de questionar e ao mesmo tempo rearticular o
interesse da sociedade, tem de afirmar nossas propostas e disputá-las
na arena política, onde diferentes sujeitos da transformação
social atuam num percurso - é duro dizer – imprevisível
e indeterminado, porque não há luz no fundo do túnel.
O feminismo está provocado a se pensar e se organizar como
movimento. No processo de diálogo entre os feminismos construídos
entre as organizações de mulheres negras e indígenas,
lésbicas, sindicalistas, de trabalhadoras rurais, de acadêmicas,
de trabalhadoras domésticas, há muitos atritos que,
felizmente, vêm nos deslocando e permitindo novos alinhamentos:
o feminista anti-racista, a aliança de parentesco entre
negras e indígenas, por exemplo, revelam que o esforco
do movimento para enfrentar as suas fragmentações,
divisões, barreiras de identidades e conflitos de interesses,
consegue avançar.
É um grande desafio para o nosso movimento transpor os
limites do pensamento político para além das identidades
e abarcar a angústia de ser negra, ser indígena,
ser lésbica, super-explorada no mercado de trabalho ou
excluída dele. Temos de afirmar e valorizar as diversas
perspectivas que se construíram a partir da elaboração
e do acúmulo trazido pelas mulheres em suas diferentes
inserções politicas, sem homogeneizar a opressão
num ser mulher genérico.
Trata-se
de realizar operações que sejam capazes de lidar
com os nossos conflitos e contradições, de reconhecer
os campos de força, referências e capacidades e enfrentar
as desigualdades e hierarquias no próprio movimento feminista.
A tarefa consiste em incitar processos de negociação
e tradução políticas, desafiando o pensamento
a superar a aritmética simples da soma entre diferentes
forças políticas, para podermos chegar a resultados
mais complexos.
O desafio de transformar o mundo enquanto nos transformamos a
nós mesmas implica, além de desenvolver estratégias
políticas para o fortalecimento do próprio movimento,
em também ter estratégias para estar frente e junto
a outros movimentos sociais. Porque esta articulação
pode construir uma arena política mais vigorosa. Mas, para
isso, é preciso batalhar contra as hierarquias que se estabelecem
entre as lutas dentro dos espaços dos movimentos sociais.
Um dos desafios do feminismo, por isso mesmo, é fortalecer
os seus princípios para não se diluir. É
preservar a sua autonomia política e ser capaz de se movimentar
no contexto da crise com o sentido e pelos caminhos que a análise
feminista conduz.
Tenho a impressão que destas confluências, entre
nós mesmas e com os outros, podem surgir as condições
para uma crítica muito mais consistente ao sistema capitalista,
ao etnocentrismo, ao racismo, ao patriarcado, que possibilitarão
ao feminismo, como movimento, enfrentar, com a radicalidade que
o momento político exige, as relações dominantes
de poder e construir alternativas para que outros mundos melhores
sejam possíveis.
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